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Dourados - 06 de September de 2010

NÃO BASTA GRITAR, TEMOS QUE AGIR!

* Prof. Silvio Raimundo da Silva

Em todo o Brasil, os mais diversos grupos e movimentos sociais estão organizando o 15º Grito dos Excluídos, que como de costume ocorrerá no dia 07 de setembro, dia que se comemora a Independência do Brasil.
O Grito dos Excluídos não se trata de um evento isolado ou um complemento ao desfile cívico e militar. Na verdade, é uma grande festa, um momento de vivência da utopia que é a construção de uma sociedade justa e fraterna, solidária e democrática onde as pessoas, independentes de que raça, cor, credo ou nacionalidade, podem se manifestar em favor da construção de uma terra sem males.
No ano de 2009, nos é proposto como tema “Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular”.
Tema bonito e de profundo significado, mas não basta termos beleza nos lemas e temas desses eventos. É preciso que os grupos e movimentos populares gritem por formas mais participativas de democracia não só política, mas econômica. É também urgente que os mesmos exijam dos governos uma inversão de prioridades sociais e econômicas, subordinando outras lutas sociais e econômicas à preocupação com a vida e os direitos básicos daqueles que vivem em situação desumana.
O fato do Grito dos Excluídos ser realizado no dia 07 de setembro também nos lembra que é preciso construir algo de uma verdadeira independência brasileira e a dignidade do nosso povo. É bastante claro que hoje todos os organismos de pesquisa concordam em um ponto: atualmente, a inflação não é mais o monstro da década de 80, por sinal, é a menor dos últimos anos. Isso tem possibilitado preço mais acessível para os alimentos básicos, valor maior do salário mínimo e um aumento no número de empregos com carteira assinada.
Organismos internacionais como a UNESCO e a FAO reconheceram uma melhoria na distribuição de renda da população brasileira. Apesar de todas as críticas justas que lhes podem ser feitas, vários dos programas sociais do governo estão sendo estudados pela ONU para aplicação em outros países pobres. Entretanto, tudo isso é apenas mera obrigação de quem governa um país e a sociedade civil tem de exigir muito mais.
É preciso uma urgente e profunda reforma agrária e a implementação de uma verdadeira justiça no campo, sem as quais todas as conquistas sociais se tornarão inconsistentes. Não basta ter um governo que dialoga com os movimentos sociais e não chama a polícia para acabar com manifestações que lhe sejam críticas, como ocorria em outros tempos. Temos de ir muito além disso.
A sociedade brasileira não pode mais aceitar que a Política se torne sinônimo de conchavos espúrios e alianças de partidos que visam apenas a conquista de votos. O povo brasileiro não merece ver o coronelismo antigo travestido de pragmatismo político. Em nome da dita governabilidade, o conchavo politiqueiro é assumido de maneira escandalosamente desavergonhada. A Política não é mais entendida como uma oportunidade de prestar um serviço ao povo e sim uma forma de tirar vantagem pessoal.
Esse ano, o Grito dos Excluídos em nível local, reveste-se de um significado mais intenso: é preciso gritar contra a impunidade e em favor da justiça. Gritar pelo fim da impunidade significa também gritar pela construção de uma cidade onde os douradenses tenham acesso a um direito fundamental: ter seu dinheiro que é pago através dos impostos sendo aplicado de maneira justa, sem que se perca nos valas da corrupção.
Agora, é importante que algo fique muito claro: não é suficiente gritar! É preciso sobretudo agir, articulando a sociedade civil em movimentos sociais e criando conexões entre eles, pois quanto mais fortes os vínculos de solidariedade, tanto mais rápido as sementes de transformação haverão de dar frutos.

* Professor de História da Rede Pública e Vice-presidente do SIMTED

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