O que antes era considerada uma simples brincadeira entre colegas de escolas, hoje é um assunto sério entre profissionais de educação, pais e psicólogos. O Bullying, termo em inglês que foi adotado por especialistas brasileiros para descrever atos de violência psicológica, é um problema que reflete diretamente na evasão escolar, queda no rendimento, e muitas vezes tendo como consequência a violência física.
No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Ceats (Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor), em parceria com a ONG Plan, que trabalha com direitos da criança e do adolescente, com 5.168 alunos de 25 escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. Entre todos os entrevistados, pelo menos 17% estão envolvidos com o problema, seja intimidando alguém, sendo intimidados ou os dois. A forma mais comum é a cibernética, a partir do envio de e-mails ofensivos e difamação em sites de relacionamento como o Orkut.
Em 2009, uma pesquisa pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou as cidades de Brasília e Belo Horizonte como as capitais brasileiras com maiores índices de bullying, com 35,6% e 35,3%, respectivamente, de alunos que declararam esse tipo de violência. Entretanto Porto Alegre foi local onde aconteceu o caso mais grave de bullying já registrado, em maio deste ano Matheus Avragov Dalvit, 15 anos, que cursava 6° do ensino fundamental, foi morto com um tiro no peito por colega de sala de 14 anos de idade. Segundo a mãe da vítima, seu filho era alvo de bullying na escola e a direção estava ciente.
Muitos pais desconhecem o problema, pois na maioria das vezes acreditam que a prática é natural do ambiente escolar, afinal quem nunca vivenciou ou foi alvo de "brincadeirinhas" típicas das salas de aula. O pai de uma adolescente, Luiz Fernando de Souza, 47 anos, só foi entender a gravidade do comportamento quando sua filha foi vítima de brincadeiras maldosas.
"Na minha época de escola a gente perturbava uns aos outros, colocávamos apelidos, mas tudo era muito salutar. Com minha filha foi diferente, ela passou a ser alvo de críticas, apelidos depreciativos e até isolamento dos colegas. O fato de sermos evangélicos foi o suficiente para minha filha passar a ser discriminada e isolada por outros colegas". Luiz Fernando disse ainda que sua filha teve que passar por tratamento psicológico para superar o trauma.
A prática do bullying sempre existiu, no entanto antes as escolas ignoravam a prática, por isso as vítimas eram obrigadas a passar por cima da agressão e continuar frequentando a escola. Flávia Cerqueira, 36 anos, relembra como sofreu com apelido de "Mônica" que fazia alusão à personagem de Maurício de Souza. "Era terrível! Meus colegas me apelidaram de Mônica porque eu era dentuça, lembro que eles cantavam até a música da personagem, isso me irritava tanto.
Mas naquela época não se podia fazer nada. Meus pais não podiam fazer nada, se fossem à escola seria pior para mim. Infelizmente na época tive que engolir, não podia deixar de frequentar as aulas por conta de um apelido, até porque os professores não tinham sensibilidade para perceber o quanto era nocivas aquelas "brincadeiras". A escola encarava de maneira natural, era como se fizesse parte do ambiente escolar", contou.
Combate nos colégios deve abordar as diversidades
Apesar de não existirem casos graves comparados a outros estados, as instituições locais já desenvolvem ações voltadas para o combate a bullying na Bahia.
Manoel Calazans, coordenador de Ensino e Apoio Pedagógico da Secretaria Municipal da Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secult), afirma que a principal maneira para combater o bullying é abordar as diversidades.
"Antigamente as escolas financiavam este comportamento, hoje orientamos os educadores enfocando sempre na questão da diversidade. Isto porque o bullying é um tipo de violência consequente da falta de respeito à diversidade, portanto procuramos sensibilizar nossos alunos em relação às diferenças, através da linguagem artística. Existe o Projeto Mário Gusmão vai à escola onde as equipes conceituam determinado tema através do teatro, o resultado é positivo porque os alunos interagem com os atores e abre espaço para o debate sobre as diferenças entre os indivíduos.
Além disso, existe o trabalho multidisciplinar onde cada disciplina assume a orientação no sentido de reforçar os valores. Língua portuguesa, por exemplo, trata da importância do nome como identidade, História a importância das etnias das diferenças culturais e assim por diante", informou o coordenador.
O presidente do Sindicato de Estabelecimentos de Ensino do Estado da Bahia (Sinepe-BA), Natálio Dantas, enfatiza que o bullying já um tema bastante discorrido nas escolas particulares. "Na Bahia, felizmente ainda não houve nenhum caso de grande proporção, entretanto estamos atentos a este tema e constantemente realizamos reuniões para falarmos sobre o bullying.
Orientamos as direções de escolas a treinarem funcionários de disciplinas para ficarem atentos à prática. Quando o estudante comete o bullying a escola deve aplicar uma punição cabível, podendo chegar até a suspensão, os pais devem ser avisados porque só eles têm autoridade para aplicar uma maior punição. Outra medida para combater definitivamente o bullying, que estamos estudando, é no caso de reincidência realizarmos uma reunião entre os responsáveis pelo aluno e o Conselho Tutelar", concluiu.