Confira o artigo de Marcos Coimbra sobre as eleições deste ano
Quem acha que a candidata não passa de 40% esquece que o presidente a pôs nesse patamar somente falando dela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto
Uma das coisas engraçadas destas eleições é observar a mudança nos
cálculos da oposição sobre o “poder de transferência” de Lula. Já faz
mais de um ano que eles são feitos e refeitos, sempre corrigindo para
cima a estimativa anterior. Agora, às vésperas do começo da última
etapa, com as campanhas chegando à televisão, eles voltaram a mudar,
outra vez em sentido ascendente.
Ainda em 2009, não havia quem, nos partidos de oposição, achasse que a
aposta de Lula ao indicar Dilma Rousseff daria certo. Além do que
entendiam ser suas dificuldades próprias – inexperiência eleitoral,
falta de carisma, pouca visibilidade de seu papel no governo (para
ficar apenas com as mais citadas) – haveria um limite à transferência
de votos de Lula para ela.
Ninguém jamais discutiu que Dilma Rousseff precisaria desses votos. Uma
candidata nova, que nunca disputara um cargo importante, sem qualquer
notoriedade fora da área técnica do governo, só por milagre alcançaria
votação sequer perceptível em uma eleição nacional. Veja-se, para
ilustrar, o que aconteceu com Aécio Neves na pré-campanha. Apesar de
ser o governador reeleito (e bem avaliado) do segundo maior colégio
eleitoral do País, mal alcançava 20% quando teve de desistir,
exatamente por lhe faltar maior volume de intenções de voto.
Mesmo sendo Dilma a candidata do PT, de longe o partido com o maior
número de filiados e simpatizantes, -suas perspectivas continuavam
baixas. O PT, sozinho, seria insuficiente para elegê-la.
Ou seja, para se tornar competitiva diante de José Serra e poder
derrotá-lo, Dilma precisava de Lula. Ela sabia disso, ele também, assim
como a torcida do Flamengo (e a de todos os seus adversários).
Mas quantos seriam os votos que ele conseguiria repassar? Apesar de
sua popularidade e simpatia, não haveria um limite a essa transferência?
Durante o ano passado, quem torcia por Serra, seja no meio político,
seja na sociedade civil, escolheu a taxa de 20% como o teto onde a
transferência de Lula poderia ir. Até a alcançar, Dilma cresceria sem
problemas. Em lá chegando, empacaria. Lula a poria no patamar de 20%,
mas, para ultrapassá-lo, a bola estaria com ela. Sozinha, sem bagagem
política, seria presa fácil do candidato do PSDB.
Essa proporção não foi inventada, pois se baseava nas respostas de
entrevistados nas pesquisas a perguntas sobre sua propensão a votar em
“quem quer que fosse o candidato indicado por Lula”. Embora variasse um
pouco, conforme o momento e a pesquisa era mesmo isso que diziam as
pessoas.
O equívoco foi, no entanto, confundir piso com teto. Os 20% não eram o
máximo, mas o mínimo que Lula, sem fazer mais nada, daria a ela.
Ela os superou ainda em outubro de 2009, jogando fora os prognósticos
peremptórios que ouvíamos até de especialistas conhecidos. Fixaram,
então, uma nova barreira em 30%, e garantiram que, deles, ela não
passaria. Coisa que fez em março e continuou subindo. A essa altura,
indo cada vez mais além do segmento do eleitorado que votaria de olhos
fechados em quem Lula indicasse.
Na última semana de julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
reviu as contas e fixou um novo limite. Para ele, depois de “Lula ter
transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos”, alcançou “um
teto”. Agora, finalmente, segundo o ex-presidente, Dilma Rousseff
pararia de crescer.
Quem garante isso? De onde vem a convicção, considerando que ela, nos
40% atuais, já está a um passo de ganhar no primeiro turno?
Quem acha que ela não cresce mais deve imaginar que a presença diária
de Lula na televisão, depois do dia 17 próximo, não terá qualquer
efeito. Que os 85% que o aprovam, os 75% que acham ótimo ou bom seu
governo, os muitos que gostam dele e o admiram ficarão indiferentes à
sua presença. Que se decepcionarão todos aqueles que só esperam
conhecer um pouco a candidata que ele apoia.
Quem acha que ela não passa de 40% esquece que Lula a pôs nesse patamar
quase que somente falando nela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir
seu voto, salvo a meia dúzia de vezes em que usou o tempo de propaganda
de seu partido.
Quem acha que ela não passa de 40% pode se preparar. Vai, provavelmente, ter uma surpresa.
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.