Ontem foi publicada uma portaria no Diário Oficial da União dispensando a
exigência de licitação para a contratação dos serviços da Empresa
Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) — que será a responsável pelos
serviços de coleta, tratamento, transporte, guarda e distribuição das
provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pelo Brasil. O
Ministério da Educação (MEC) pagará à ECT R$ 18 milhões pelo serviço. A
grande preocupação, entretanto, é que a empresa passa por uma crise
interna, com a suspensão de vários processos licitatórios referentes à
maior parte de suas agências franqueadas. O contrato também não foi
assinado com todos os detalhes do trabalho a ser feito. Em nota, a ECT
afirmou que a distribuição do Enem não corre risco, desvinculando a
crise interna do serviço a ser prestado: “A operação Enem é realizada
por meio do serviço de logística integrada da ECT e envolve apenas
centralizadoras de cargas e unidades distribuidoras, em nada dependendo
da rede de agências”.
Porém, Marco Aurélio de Carvalho, advogado
da Associação Brasileira de Franquias Postais, fala em risco de um
apagão postal. “E não é só o Enem, falo também dos documentos eleitorais
e de outras correspondências importantes. Os Correios tentam esconder
isso, mas todos lá dentro sabem do que está acontecendo”, diz Carvalho.
Suspensão
A
suspensão do pregão eletrônico para escolher a gráfica que imprimirá as
provas e a demora na assinatura dos contratos com as empresas parceiras
não são os únicos percalços do Instituto Nacional de Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep) na tarefa de aplicar o Enem este
ano. Quando todo o processo for concluído, depois da correção dos
testes, o Inep passará por um pente-fino. É o que procurador do
Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU), Marinus
Marsico, vai questionar a dispensa de licitação para contratação dos
Correios, do Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe) e da
Fundação Cesgranrio.
“Não vou me furtar em agir em relação a esse
caso, uma vez que não considero adequadas as contratações sem
licitação. Cabe a nós verificar a fundo os repasses feitos a essas
instituições e, se houver sobrepreços ou pagamentos fora dos valores de
mercado, buscaremos a responsabilização dos gestores e dirigentes da
instituição”, destaca Marinus. De acordo com ele, não cabe pedir a
suspensão do processo a essa altura devido ao prejuízo que isso
acarretaria aos estudantes que farão as provas. “Mas sim quando tudo for
concluído”, adianta.
A ideia de dispensar licitação para fazer o
Enem começou a ser aventada ainda no ano passado, depois do vazamento
das provas. O Inep, na ocasião, teve de fazer uma contratação de
urgência, devido ao curto prazo para aplicação dos testes. Naquele
momento, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que fecharia
os contratos com as organizadoras sem passar por licitações. No fim de
2009, Marinus se reuniu com dirigentes da pasta. “Expliquei que como o
Cespe costuma subcontratar instituições privadas para ajudá-lo, a
exemplo da Cesgranrio, dispensar a licitação fere a legislação”, diz o
procurador.
Como o contrato com o Cespe e com a Cesgranrio não
foram assinados, é impossível dizer quanto o Enem custará aos cofres
públicos. O Inep afirma, por meio da assessoria de imprensa, que os
valores devem ficar próximos aos do ano passado, quando foram
desembolsados R$ 99.959.837,86 com essas duas instituições. Mais o valor
que deve ser pago à Empresa Brasileira de Correios e Telegráfos, algo
em torno de R$ 18 milhões, o custo total do Enem não ficará por menos de
R$ 120 milhões.
Estudo
Para
garantir a segurança no transporte das provas da gráfica até os locais
de aplicação, as Forças Armadas foram acionadas pelo Ministério da
Educação (MEC), em 27 do mês passado, por meio de um aviso ministerial. O
Ministério da Defesa destacou que o estudo sobre como isso se dará já
começou a ser feito. Porém, não há como dizer quantos homens serão
destacados e em quais lugares. No pedido, o MEC solicita “apoio na
guarda e transporte aéreo e marítimo das provas do Enem” em locais de
difícil acesso.
GRÁFICA SE EXPLICA
A
Plural publicou nota em seu site, alegando que o Inep não teria motivos
para pedir sua desclassificação. A gráfica afirma que “apresentou todos
os documentos exigidos no referido edital, inclusive aqueles
relacionados à produção de impressos em condições especiais de
segurança, bem como de capacidade produtiva necessários para a execução
dos serviços propostos”. A Plural diz ainda que não responde por
qualquer demanda judicial em relação ao vazamento da prova do Enem 2009.
A gráfica informa que foi contratada pelo Consórcio Connasel para
imprimir os exames de 2009 e entregá-los em caixas lacradas, “cabendo
exclusivamente ao referido consórcio garantir a segurança e executar
todas as atividades de manuseio, empacotamento, rotulagem e transporte
das provas”.