"Professor, já terminei. Posso jogar?", pede a pequena Ielany Tenório, 11 anos, ao professor de inglês Marcelo Costa. A chegada de mais de 500 notebooks e a instalação de internet sem fio via Power Line Communication (PLC) na Escola Anete Vale de Oliveira mudaram a vida escolar de aluna e professor de maneiras bastante distintas, mas interligadas.
O colégio fica em Pedra, no Agreste, a 232 km do Recife. Na cidade, só se acessa a internet de duas formas: via rádio ou nos poucos bairros atendidos pela Velox. A maioria dos alunos não tem computador em casa, e só conhece a web através de lan houses ou do laboratório de informática da escola. Era assim até a escolha da instituição como um dos pilotos do projeto Um computador por aluno (UCA) e sede de testes do uso de PLC no Estado.
"A maior diferença está na motivação dos alunos", conta Marcelo. Segundo o professor, a atenção dos estudantes fica totalmente focada no conteúdo da aula, e na possibilidade de expandir aquele conhecimento por meio do uso da internet. "O mais interessante é ver os estudantes se ajudando, de forma totalmente espontânea. Quem era líder na bagunça agora usa essa liderança para auxiliar quem ainda não se familiarizou com o computador", explica o professor.
Ielany, por exemplo, tinha um computador em casa que, infelizmente, a mãe comerciante e o pai motorista tiveram que vender. "Posso procurar no computador imagens sobre o assunto que o professor está dando. É muito melhor do que no livro, que tem poucas fotos", comenta a estudante. Já Taciana Gomes, 14 anos, pode traduzir online um texto em inglês que ela não compreendia e ver como é uma múmia de verdade na aula de história. "Pena que estou na 8ª série, e no ano que vem não terei mais notebook na sala", lamenta. A escola Anete Vale não atende ao ensino médio.
As máquinas utilizadas pelos alunos têm 4 Gb de HD, 512 de memória RAM e tela de 7 polegadas, o padrão do UCA. A instalação da internet foi coordenada pela Associação de Empresas Proprietárias de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel). Segundo explica o técnico de informática do centro, Leandro Araújo, a rede PLC só funciona no prédio. "A internet chega aqui via DSL, e só depois o conversor transfere o sinal para a corrente elétrica", afirma. Cada sala possui um roteador wi-fi, que se conecta com os notebooks para acesso à web. "A instalação é muito prática, já que aproveita a rede elétrica existente. Não foi preciso fazer nenhum cabeamento especial", completa o técnico. Os equipamentos PLC e Access Point foram doados pelas empresas Panasonic e Procable.
As novas ferramentas não fazem somente a cabeça dos alunos, mas também alteraram bastante a forma como os professores planejam as aulas. Ediglêde Gomes, professora de português que antes da chegada do projeto já era ligada em tecnologia, afirma que o desafio é encarar os computadores como mais uma ferramenta, e não se tornar dependente deles.
"Funciona como o quadro, as bancas, o caderno... Nem tudo pode girar em torno dos notebooks, uma vez que o objetivo final é a produção, que os alunos criem algo a partir das pesquisas", acredita Ediglêde.
O professor de geografia, Jaelson Pereira, por exemplo, utiliza informações e dados coletados na rede para fazer com que os jovens vivenciem o conteúdo das aulas. "Se o assunto é o processo de favelização, peço aos estudantes que entrem nas comunidades sobre as favelas do Rio de Janeiro no Orkut. Assim, eles têm a visão de quem realmente mora nesses lugares", diz Jaelson.
O retorno dos alunos, em forma de interesse no assunto dado, é o maior prêmio para o mestre. "Pode não parecer muita coisa, mas quando um desses jovens vem me contar que fez uma pesquisa por conta própria depois da aula, fico até arrepiado."