Dourados - 05 de February de 2012

O mundo na sala de aula

Se o lema agora é acabar com a decoreba e valorizar as experiências pessoais nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), nada melhor que entrar de cabeça em novas vivências. Um grupo de estudantes de Belo Horizonte incorporou bem a ideia e, nos assuntos ligados aos problemas climáticos e às questões históricas e geopolíticas, eles podem se gabar de ter dado um passo à frente dos concorrentes. Alunos de várias escolas da capital fizeram uma verdadeira imersão em conferências e debates, com um detalhe:partiram da teoria para a prática, ao participar da Simulação Interna Magnum das Nações Unidas (Sima). Vestidos com roupas tradicionais dos países representados, de terno e gravata ou sobre saltos, os adolescentes mostraram seriedade para tratar os temas e ampliaram os conhecimentos para encarar uma outra batalha, a da disputa por uma vaga na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Dos quatro dias de conferência participaram 130 alunos do 9º ano do ensino fundamental ao 3º do médio dos colégios Magnum, Militar, Marista, Santa Marcelina e Loyola. Os jovens simularam as atividades da Comissão de Direitos Humanos e Participação Legislativa (CDH), do Conselho Europeu (adesão de novos membros à Comunidade Europeia) e a Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP 15). Os debates se encerraram domingo, mas os trabalhos vão continuar no colégio que sediou o evento, no Bairro Cidade Nova, na Região Noroeste de BH, com o grupo de estudos políticos. Além dos assuntos da ONU, fazem parte das discussões os sistemas de governo, manutenção de república, restauração de monarquias, entre outros aspectos.

O professor de história Fabrício Fonseca Costa, responsável pela parte acadêmica do evento, destaca que um dos principais ganhos da Sima é a capacidade que os alunos adquirem de deparar com situações novas a todo momento, seja no debate político ou internacional. Segundo ele, além do conhecimento produzido em sala de aula, eles têm acesso a muitas informações independentes, pois a preparação é feita de forma autônoma, em casa. "Os meninos com essa característica do estudo autônomo e do pré-conhecimento saem à frente até mesmo dos colegas de sala, à medida que se dispõem a passar um fim de semana estudando e debatendo. Quando pensamos no vestibular, esse ganho é maior ainda", afirma.

Para Costa, é a oportunidade de conhecer o mundo de forma mais ampla e também de se inteirar sobre as questões subjetivas do ser humano, como os temas relativos à sexualidade e ao casamento civil, tratados nas reuniões. "Tivemos a presença de um diplomata português, que falou da experiência de lidar com uma guerra civil e sobre a solidão que é a vida desse profissional. São aspectos menos glamourosos e não há sala de aula que consiga dar aos alunos essas dimensões", observa.

Os alunos confirmam. O adolescente Orlando Vignoli Neto, de 17 anos, do 3º ano, participou de todas as edições da Sima como colaborador, delegado e, agora, foi diretor pela segunda vez. Já representou a Turquia, o Japão e, nesta etapa, esteve à frente do comitê do Senado brasileiro. "A simulação abre a visão de mundo, facilita o aprendizado, pois temos de pôr a teoria em prática. Assimilamos mais a cultura do país, a situação e o contexto político", diz.

Candidato a uma vaga em direito, na UFMG, e em administração pública, na Fundação João Pinheiro, o garoto aposta nessas experiências para faturar boa pontuação no Enem. "Muito do que aprendi será cobrado. Na parte de ciências humanas, a história tem uma abordagem muito política. Na bioquímica, entrará a biodiversidade, também discutida nos comitês. Por causa dos debates, terei facilidade para interpretar as questões, e tempo no Enem é fundamental", ressalta.

Também do 3º ano, Ana Luísa Pinto Miranda, da mesma idade, candidata ao curso de publicidade na maior universidade federal do estado, atuou no comitê de imprensa, como fizera anteriormente. Em 2009, viveu o papel de repórter. Neste ano, foi diretora. De acordo com ela, prestar atenção nos debates e aliar as informações com os conhecimentos de sala é como ter uma aula com os próprios colegas. "Temos a oportunidade de uma visão fora dos livros e do convencional. Podemos sentar e escutar realmente, entender por que as coisas ocorrem no mundo. E, quando nos depararmos com questões desse tipo, não estaremos robotizados, com um conhecimento padrão. Será mais fácil e poderemos desenvolver melhor as respostas (do Enem)."

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